Crescimento pessoal na universidade: o que pode ser aprendido — e o que ainda falta demonstrar
Pesquisas sobre currículos, treinamento e oficinas de arte exploram caminhos para o desenvolvimento, mas ainda não comprovam quais estratégias funcionam melhor.
Quatro trabalhos abordam o desenvolvimento pessoal universitário por perspectivas distintas: bem-estar no currículo, relações sociais, treinamento estruturado e reflexão com obras de arte. Os resultados oferecem pistas para experiências educativas, mas não demonstram que essas iniciativas, por si só, produzam benefícios duradouros ou mudanças na prática profissional. [1][2][3][4]
- O bem-estar é apresentado como um conceito multidimensional, que inclui autonomia, propósito, relações e integração social, não apenas satisfação individual. [2]
- Uma avaliação curricular identificou objetivos adequados, mas poucas oportunidades de prática e feedback; não mediu melhora no bem-estar dos estudantes. [1]
- Um treinamento com 12 universitários foi associado a maiores escores de iniciativa de crescimento pessoal, mas não contou com grupo de comparação. [3]
- Oficinas em um museu receberam avaliações favoráveis, sem demonstrar mudanças objetivas na qualidade do cuidado de enfermagem. [4]
- As fontes convergem na valorização de experiências educativas mais amplas, mas investigam resultados diferentes e não permitem comparar a eficácia das propostas. [1][2][3][4]
Introdução
Se uma universidade pretende contribuir para o desenvolvimento pessoal, o que deveria oferecer além de conteúdo técnico? Uma disciplina sobre bem-estar? Oportunidades de reflexão? Atividades para planejar mudanças? Experiências que coloquem o estudante em contato com perspectivas diferentes da sua?
Quatro trabalhos exploram essas possibilidades por caminhos distintos: uma avaliação de currículo em Medicina Veterinária, uma revisão teórica sobre bem-estar universitário, um treinamento de crescimento pessoal e oficinas de artes visuais ligadas à Enfermagem. Em conjunto, eles permitem discutir tanto capacidades individuais quanto condições educativas e relações sociais. Mas não fornecem uma receita comprovada de desenvolvimento pessoal. [1][2][3][4]
A questão central é separar três coisas: o que uma proposta pretende desenvolver, o que seus participantes percebem e o que uma pesquisa consegue demonstrar. Essa distinção ajuda a aproveitar ideias interessantes sem transformá-las em promessas.
O que as pesquisas investigaram
Na Melbourne Veterinary School, pesquisadores realizaram uma revisão avaliativa de um currículo de bem-estar incorporado ao programa de Medicina Veterinária. Examinaram documentos, fizeram mapeamento curricular, acompanharam duas situações de ensino como observadores não participantes e reuniram interpretações de especialistas. O objeto da investigação foi o currículo formal, não a evolução do bem-estar dos estudantes. [1]
O trabalho sobre bem-estar e potencial humano adotou uma abordagem qualitativa documental, baseada em revisão teórica. Seu objetivo foi integrar conceitos como autonomia, emoções, pertencimento, relações significativas e educação integral. O resumo não apresenta recrutamento de participantes nem informações suficientes para classificar a pesquisa como revisão sistemática. [2]
Já o estudo da Universidade Sriwijaya, na Indonésia, acompanhou 12 estudantes de graduação com nível moderado de iniciativa de crescimento pessoal, ou PGI, que completaram todas as sessões de um treinamento. O programa combinou educação sobre esse conceito e atividades estruturadas de crescimento. Os participantes responderam à Personal Growth Initiative Scale II antes, depois e um ano após a intervenção. Foi um estudo quase experimental de grupo único, sem randomização ou grupo de comparação. [3]
Na Enfermagem, uma parceria com um instituto de arte promoveu duas oficinas em museu, entre julho de 2024 e março de 2025. Cada oficina durou duas horas e envolveu observação e reflexão sobre obras selecionadas. A participação foi voluntária, sem vínculo com exigências de disciplinas ou do trabalho. Das 17 pessoas participantes, 15 responderam à avaliação posterior: nove estudantes, cinco docentes e uma pessoa da equipe. [4]
O que foi encontrado
No currículo de Veterinária, a intenção educativa estava mais desenvolvida do que as oportunidades de aplicação. Os objetivos de aprendizagem foram considerados conceitualmente adequados e organizados segundo uma sequência de desenvolvimento. Entretanto, a correspondência entre esses objetivos e as avaliações era incompleta, enquanto as oportunidades de prática aplicada e feedback eram limitadas. [1]
Também não havia um currículo formal explícito de bem-estar no último ano clínico. As conexões entre bem-estar, comunicação e fatores sistêmicos apareciam com pouca frequência. Os autores propuseram maior integração ao longo da formação, prática profissional aplicada, reflexão formativa, desenvolvimento docente e avaliação longitudinal. Essas são prioridades de aprimoramento, não resultados de eficácia demonstrada. [1]
A revisão teórica descreveu uma ampliação do conceito de bem-estar: de abordagens centradas na satisfação com a vida e na experiência afetiva para perspectivas que incluem autonomia, crescimento, propósito, relações positivas, integração e contribuição social. Também relacionou o desenvolvimento do potencial humano à competência, ao autoconhecimento e à construção de vínculos significativos. [2]
Nesse trabalho, experiência emocional e regulação das emoções aparecem conectadas à adaptação, à aprendizagem e às relações interpessoais. Pertencimento, apoio social, cooperação e participação grupal também recebem destaque. São relações sintetizadas na discussão teórica, e não efeitos medidos em uma nova amostra de universitários. [2]
No treinamento indonésio, os escores de iniciativa de crescimento pessoal foram maiores depois da intervenção e no acompanhamento de um ano, em comparação com o início. As duas diferenças foram estatisticamente significativas. Não houve diferença estatisticamente significativa entre a avaliação imediatamente posterior e a realizada um ano depois. [3]
Essa última observação exige cuidado: não encontrar diferença significativa não comprova que os resultados permaneceram exatamente estáveis. A pesquisa registrou escores superiores aos iniciais nas duas avaliações posteriores, mas seu desenho não permite atribuir essa mudança exclusivamente ao treinamento. [3]
Nas oficinas de arte, 87% dos respondentes relataram estímulo à curiosidade e à consciência social. Outros 67% relataram melhora na percepção de sua capacidade de oferecer cuidados culturalmente responsivos. Estudantes também mencionaram contato com novas populações e temas de saúde por meio das obras. Esses números descrevem percepções após a atividade, não uma avaliação objetiva da assistência prestada. [4]
Como interpretar
A convergência mais relevante está na maneira de formular o desenvolvimento pessoal. A revisão teórica o situa em dimensões individuais e sociais; a avaliação curricular considera também pressões organizacionais e sistêmicas; o treinamento focaliza o envolvimento intencional no próprio desenvolvimento; e as oficinas exploram reflexão e complexidade social. São perspectivas complementares, mas não intercambiáveis. [1][2][3][4]
Não aparece, nos resultados fornecidos, uma contradição direta entre os trabalhos. A principal diferença está nas perguntas e nos critérios de avaliação: organização curricular, integração conceitual, pontuação em uma escala e percepção após uma experiência. Por isso, seria inadequado reunir tudo sob a afirmação de que “atividades de desenvolvimento pessoal funcionam”. Cada fonte sustenta uma conclusão mais restrita. [1][2][3][4]
Uma leitura útil pode ser organizada em três perguntas:
- Qual capacidade se pretende desenvolver? Diferenciar bem-estar, iniciativa de crescimento, curiosidade e competência profissional evita tratar objetivos distintos como sinônimos.
- Que oportunidade existe para praticá-la? Vale perguntar onde entram atividades aplicadas, reflexão e retorno sobre a aprendizagem.
- Como a mudança será reconhecida? Uma avaliação favorável, uma alteração em escala e uma mudança observável na atuação profissional não são a mesma coisa.
Essas perguntas podem orientar a análise de uma disciplina ou oficina, sem pressupor que um formato específico seja eficaz. No estudo curricular, por exemplo, a existência de objetivos considerados adequados não eliminou lacunas de prática e avaliação. Nas oficinas, relatos positivos não estabeleceram melhora objetiva no cuidado. [1][4]
Para quem busca desenvolvimento pessoal, a proposta aqui é usar essas distinções como critérios de escolha: perguntar o que uma atividade promete, que experiência oferece e quais evidências apresenta. Isso não constitui um método validado de crescimento, mas uma forma de examinar propostas com expectativas proporcionais ao que se sabe.
Pontos de cautela
Os limites não são iguais em todas as fontes. A avaliação de Veterinária examinou um único programa, com duas observações de ensino e sem coleta sistemática de feedback de estudantes e educadores. Assim, não estabeleceu como o currículo foi vivenciado nem se melhorou resultados. O caráter longitudinal se refere à organização curricular, não a um acompanhamento demonstrado de participantes. [1]
A revisão teórica não informa, no resumo, estratégia de busca, critérios de seleção, quantidade de documentos ou avaliação da qualidade da literatura. Ela oferece um mapa conceitual, mas não permite estimar a intensidade das relações discutidas nem estabelecer causalidade. [2]
No treinamento, a amostra pequena, restrita a uma universidade e a estudantes que completaram as sessões, limita a generalização. Sem grupo de comparação, não é possível separar a participação no programa de outras mudanças ocorridas ao longo do tempo. [3]
Nas oficinas, a participação voluntária, as respostas de apenas parte do grupo e a avaliação exclusivamente posterior restringem a interpretação. Não foi informado acompanhamento de longo prazo nem uma medida objetiva de desempenho profissional. [4]
A conclusão mais defensável é modesta: essas pesquisas apresentam possibilidades educativas e sinais preliminares que merecem investigação, não garantias de transformação. Reconhecer essa diferença permite valorizar a reflexão e o crescimento sem exigir da evidência mais do que ela pode entregar. [1][2][3][4]
Aplicações práticas
Ao avaliar uma atividade de desenvolvimento pessoal, pergunte qual capacidade ela pretende trabalhar, quais oportunidades de prática oferece e como seus resultados são avaliados. Para instituições, as lacunas identificadas no currículo de Veterinária sugerem pontos a examinar — continuidade ao longo da formação, feedback e correspondência entre objetivos e avaliações —, sem que isso constitua uma estratégia de eficácia comprovada. [1] Trate relatos de satisfação ou melhora percebida como informações sobre a experiência, não como prova de mudança profissional. [4]
Limitações das evidências
As fontes incluem uma avaliação curricular de um único programa, uma revisão teórica com métodos de seleção pouco detalhados no resumo, um estudo quase experimental com 12 participantes e sem controle e uma avaliação pós-oficina com 15 respondentes. Os trabalhos medem objetos distintos e não permitem comparar intervenções ou estabelecer eficácia causal. A análise se restringe aos resumos e às informações fornecidas. [1][2][3][4]
Há contribuições conceituais e descritivas para pensar o desenvolvimento pessoal na universidade. Entretanto, a evidência de que as iniciativas produzem benefícios é muito limitada: faltam comparadores, medidas objetivas de atuação profissional e avaliações mais robustas dos resultados dos estudantes. O acompanhamento de um ano no treinamento é informativo, mas não resolve a ausência de grupo controle. [1][2][3][4]
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Referências
- [1]Corrigan VK, Carter J, Colla RH et al. (2026). An upstream approach to veterinary workforce wellbeing: an evaluative review of an embedded wellbeing curriculum in veterinary education.. Frontiers in veterinary science doi:10.3389/fvets.2026.1972718 PMID 42812412
- [2]Muñoz Astudillo X (2026). Bienestar, desarrollo personal y potencial humano en estudiantes universitarios: una perspectiva psicosocial y educativa. InnovaSciT doi:10.70577/innovascit.v4i2.272
- [3]Iswari R, Mardhiyah S, Rachmawati R et al. (2026). The Effectiveness of Personal Growth Training in Increasing Personal Growth Initiative Among College Students: A Quasi-Experimental Study with a One-Year Follow-Up Assessment. Gadjah Mada Journal of Professional Psychology (GamaJPP) doi:10.22146/gamajpp.116538
- [4]Bejster M, Reising V, Ramos S (2026). Artful Encounters: Using Visual Humanities to Explore Social Complexity in Nursing.. Creative nursing doi:10.1177/10784535261493619 PMID 42805909